Perfil de Latossolo argiloso do Cerrado com camadas subsuperficiais
Adubação

Efeito residual do enxofre: por que uma aplicação serve para vários anos

A intuição sobre enxofre é a mesma do nitrogênio: nutriente que lixivia precisa de reposição anual. No caso do sulfato em Latossolo do Cerrado, essa intuição está errada, e a diferença muda a frequência de aplicação.

Os dois experimentos

O livro traz dois ensaios com culturas anuais em que o enxofre foi aplicado apenas no primeiro cultivo:

ExperimentoDose aplicadaResultado
1108 kg/ha de SBons rendimentos até pelo menos o quinto ano
260 kg/ha de SBons rendimentos até pelo menos o quinto ano

Cinco safras a partir de uma aplicação. Isso não acontece com nitrogênio, e a explicação está na química do solo.

Onde o sulfato vai parar

O prolongado efeito residual se deve à elevada capacidade de adsorção de sulfato nas camadas subsuperficiais dos Latossolos do Cerrado.

Acompanhando a dose de 60 kg/ha, observou-se que o sulfato foi rapidamente lixiviado da camada superficial, mas permaneceu retido nas camadas de 15 cm a 45 cm. Ele saiu da camada arável, o que numa análise de 0 a 20 cm apareceria como perda, e ficou logo abaixo, disponível.

O sulfato não sai do sistema. Ele muda de andar.

Por que ele fica retido embaixo e não em cima

A adsorção de sulfato depende de cargas positivas, e a quantidade delas é menor na camada superficial por dois motivos que se somam: os efeitos da calagem e da adubação fosfatada, que reduzem as cargas positivas, e o maior teor de matéria orgânica em relação à subsuperfície.

Ou seja, é a própria correção do solo que faz o sulfato não parar na camada de cima. Não é defeito de manejo, é consequência dele.

A condição que precisa ser satisfeita

Todo esse residual só vale se a planta conseguir chegar lá. Não havendo problemas de impedimento mecânico, como compactação, ou restrições químicas ao crescimento das raízes, o sulfato retido na subsuperfície é utilizado pela planta.

Em área compactada, ou com subsolo ácido, com alumínio alto ou cálcio baixo, a raiz para antes e o enxofre fica inacessível. Nesse caso, a lavoura pode mostrar deficiência com o nutriente presente no perfil, e a solução é gessagem ou descompactação, não mais enxofre.

Solo arenoso é diferente

A adsorção de sulfato é diretamente relacionada ao teor de argila, e portanto menor nos solos arenosos. Embora o efeito residual em arenosos não tenha sido avaliado por período tão longo quanto nos argilosos, a expectativa é de que seja menos prolongado.

Na prática: em solo arenoso, não conte com cinco anos. Monitore com análise e esteja preparado para repor antes.

A estratégia que isso permite

Culturas anuais podem ser adequadamente supridas de enxofre com dose elevada aplicada a lanço uma única vez, com efeito residual por vários anos. Quando o objetivo é apenas suprir enxofre por esse período, sugere-se aplicar no mínimo 100 kg/ha de S em solos de disponibilidade baixa ou média.

Essa dose resulta em teores de S na camada de 21 a 40 cm sempre acima de 10 mg/dm³. Vale saber, porém, que os teores na camada superficial muitas vezes ficam abaixo de 5 mg/dm³ depois de um ou dois anos em áreas com acidez corrigida. Se você analisar só a superfície, vai concluir que precisa reaplicar quando não precisa.

E o gesso

Quem faz gessagem para corrigir a subsuperfície resolve o enxofre de quebra, e por muito mais tempo: doses elevadas de S na forma de gesso agrícola resultam em teores altos de sulfato nessas camadas durante muitos anos. É a razão pela qual quem gessou pode trabalhar com fórmula concentrada, sem enxofre, na adubação de semeadura.

O panorama do nutriente na região está em o macronutriente esquecido do Cerrado. Por que o sulfato desce e outros nutrientes não, em lixiviação de nutrientes. E a condição que faz o residual valer, em como a compactação trava a raiz. A dose que sustenta esse residual está em a conta do enxofre. Para medir a resposta na sua área em vez de confiar na média, veja o teste de faixa na fazenda.

Referências: SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 9, p. 229-231 e 239-240.

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