Tanque de fertilizante líquido acoplado à semeadora ao lado de sacaria de adubo fosfatado granulado
Fósforo

Fosfatado fluido ou granulado: no Latossolo a diferença não aparece

A oferta de fosfatado fluido cresceu, e com ela um argumento sedutor: como o produto é líquido, ele se espalha melhor no solo, alcança mais raiz e por isso aproveita mais. A primeira parte é verdade. A segunda não se confirma no tipo de solo que domina o Cerrado, e a diferença entre as duas afirmações vale dinheiro na hora de fechar a compra.

De onde veio a promessa

A vantagem do fluido sobre o granulado é real, mas em outro ambiente. Em solos calcários, onde a disponibilidade de fósforo é limitada por reações de precipitação com cálcio, fontes fluidas aumentam a absorção de fósforo em relação às granuladas aplicadas na mesma dose. Em ensaio com trigo que comparou os dois formatos em solos diferentes, o ganho do fluido apareceu justamente no solo calcário (Montalvo; Degryse; McLaughlin, 2015).

O problema é a transferência do argumento. Solo calcário e Latossolo do Cerrado travam o fósforo por mecanismos diferentes, e é esse detalhe que muda a conclusão.

O que o ensaio brasileiro mostrou

A comparação já foi feita aqui, com os nossos solos. Em experimento conduzido no CENA, em Piracicaba, com milho cultivado em vasos por três ciclos de 30 dias, foram comparadas fontes fluidas (ácido fosfórico e uma suspensão coloidal 10-30-00) e sólidas (fosfato monoamônico e superfosfato triplo), em quatro doses de P₂O₅, em dois Latossolos Vermelho-Amarelos com capacidades diferentes de retenção de fósforo (Scivittaro; Boaretto; Muraoka, 1997).

O resultado foi direto. Não houve diferença entre fluidos e sólidos na produção de matéria seca nem na absorção de fósforo pelo milho, e a eficiência agronômica das duas formas foi equivalente nos dois solos. O que se relacionou de forma significativa e positiva com a matéria seca e com a absorção foi a dose de fósforo aplicada (Scivittaro; Boaretto; Muraoka, 1997).

Em uma frase: quem decidiu a resposta foi quanto de fósforo entrou, não em que estado físico ele entrou.

Por que o Latossolo não premia o fluido

Em solos ácidos com alta capacidade de adsorção, categoria em que entram os Latossolos (Oxisols na classificação americana), a disponibilidade do fósforo do fertilizante é limitada por adsorção aos óxidos de ferro e alumínio, e não por precipitação. Em estudo de incubação com Oxisols e Andisols, o fertilizante fluido realmente se difundiu mais longe do ponto de aplicação, só que essa difusão maior não se converteu em mais fósforo lábil. A conclusão dos autores é que, nesses solos, não se deve esperar benefício agronômico do fluido sobre o granulado, porque espalhar o fósforo por um volume maior de solo aumenta o contato com os sítios de adsorção (Montalvo; Degryse; McLaughlin, 2014).

Repare que isso é exatamente o oposto do raciocínio do folheto. No solo do Cerrado, espalhar mais não é vantagem: é mais superfície de solo fixando o seu adubo. Esse é o mesmo motivo pelo qual a aplicação em sulco rende mais que a aplicação a lanço em solo não corrigido, lógica detalhada em por que você aplica fósforo e a planta não absorve.

O ensaio em vaso com trigo fechou o ciclo: nos Oxisols e Andisols não houve diferença significativa entre o fosfato monoamônico granulado e o fluido em matéria seca, em absorção de fósforo e na fração do fósforo da planta que veio do fertilizante (Montalvo; Degryse; McLaughlin, 2015).

Uma ressalva honesta sobre o conjunto dessas evidências: são trabalhos de casa de vegetação e de incubação, com controle maior que o do campo. O que eles autorizam a dizer é que não existe base para esperar vantagem do fluido no nosso tipo de solo, e não que o fluido seja pior.

A conversão de unidade que muda a comparação de preço

Aqui está o erro de conta mais comum nessa compra. Granulado é vendido por tonelada e garantido em percentual de massa. Fluido é vendido por litro e a dose é volumétrica. Comparar preço por litro com preço por quilo não significa nada, porque falta a densidade.

O caminho correto tem três passos:

  1. Pegue a densidade do produto no rótulo ou na nota fiscal, em kg/L. O rótulo costuma trazê-la em g/mL ou g/cm³, que é o mesmo número. E não é favor do vendedor: em fertilizante fluido a densidade tem declaração obrigatória no rótulo, na nota fiscal e no documento auxiliar da nota fiscal (Brasil, 2018, art. 13).
  2. Multiplique a densidade pela garantia de P₂O₅ em percentual para achar quantos quilos de P₂O₅ existem em cada litro. A garantia em percentagem mássica está sempre no rótulo do fluido, e a indicação em g/L, quando aparece, é facultativa e vem entre parênteses logo depois (Brasil, 2018, art. 6º e § 4º). Ou seja, a conta nunca fica sem entrada.
  3. Divida o preço do litro por esse valor para chegar ao custo por kg de P₂O₅, e só então compare com o granulado.

Um exemplo com números redondos para mostrar a ordem de grandeza. Suponha um fluido com densidade de 1,4 kg/L e garantia de 34% de P₂O₅ em massa. Cada litro carrega 1,4 vezes 0,34, ou seja, 0,476 kg de P₂O₅. Para entregar 80 kg/ha de P₂O₅ seriam necessários cerca de 168 L/ha de produto. Esse volume é a informação que decide a logística, o tanque e o frete, e é ele que precisa estar na comparação, não o preço do litro.

Do lado do sólido a conta já está montada: custo por kg de P₂O₅ igual ao preço da tonelada dividido pelo teor em percentual vezes 10, como está em MAP, DAP, superfosfato simples ou triplo. O roteiro de três passos acima é a mesma conta entrando pelo litro. Ponha os dois resultados lado a lado e compare números da mesma natureza, nunca duas contas diferentes.

O que compararGranuladoFluido
Base da garantiaPercentual em massaPercentual em massa, com g/L facultativo entre parênteses
Unidade de vendaToneladaLitro
Dado que o comprador esquece de usarNenhumDensidade, em kg/L
Número que decideCusto por kg de P₂O₅ posto na fazendaCusto por kg de P₂O₅ posto na fazenda

A ponte entre a língua do rótulo, que é óxido, e a língua do laudo, que é fósforo elementar, está em como converter P₂O₅ em P sem errar a conta.

Onde o fluido ganha de verdade

A decisão entre fluido e granulado existe, só que ela é operacional, e não de eficiência agronômica do fósforo em Latossolo:

Fora dessas situações, a escolha volta para o lugar onde ela sempre esteve: dose correta, fonte de boa solubilidade, aplicação localizada e solo com acidez corrigida. A comparação entre as fontes sólidas mais usadas está em MAP, DAP, superfosfato simples ou triplo.

Como fechar a decisão

  1. Peça a densidade e a garantia, e calcule o custo por kg de P₂O₅ das duas opções antes de qualquer conversa sobre tecnologia. Em fluido esses dois dados são de declaração obrigatória, então "não tenho esse número" não é resposta aceitável (Brasil, 2018).
  2. Calcule o volume de produto por hectare e confira se a sua operação suporta esse volume na janela de semeadura.
  3. Se o vendedor usar o argumento da maior difusão no solo, lembre que em Latossolo a difusão maior não virou mais fósforo disponível.
  4. Se a diferença de preço por unidade de P₂O₅ for favorável ao fluido e a logística fechar, compre pelo preço. Se não for, não pague prêmio por uma vantagem que o seu solo não entrega.

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Referências: SCIVITTARO, W. B.; BOARETTO, A. E.; MURAOKA, T. Eficiência agronômica de fertilizantes fosfatados fluidos e sólidos. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v. 21, n. 3, 1997. MONTALVO, D.; DEGRYSE, F.; McLAUGHLIN, M. J. Fluid fertilizers improve phosphorus diffusion but not lability in Andisols and Oxisols. Soil Science Society of America Journal, v. 78, n. 1, p. 214-224, 2014. MONTALVO, D.; DEGRYSE, F.; McLAUGHLIN, M. J. Agronomic effectiveness of granular and fluid phosphorus fertilizers in Andisols and Oxisols. Soil Science Society of America Journal, v. 79, n. 2, p. 577-584, 2015. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 39, de 8 de agosto de 2018. Diário Oficial da União, 10 ago. 2018.

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