Sacaria de semente de soja tratada aguardando plantio em galpão, com etiqueta de lote visível
Inoculação

Semente pré-inoculada: quantos dias a bactéria aguenta antes do plantio

A semente chega da revenda já inoculada, com tratamento industrial aplicado semanas antes, e a promessa é que a bactéria está lá dentro esperando o plantio. Parte dela está. A pergunta é quanta, porque a conta da nodulação é feita em células viáveis por semente, e célula morta não entra.

A regra base continua sendo 24 horas

Para inoculante comum, sem protetor celular, a recomendação é semear logo após a inoculação. Se não for possível semear em até 24 horas, o procedimento precisa ser repetido. A pesquisa registra quedas drásticas na sobrevivência das bactérias já a partir de 24 horas depois da inoculação, e a queda é mais acentuada quando há produto químico na semente.

Essa é a régua contra a qual qualquer promessa de pré-inoculação precisa ser medida.

O que o protetor celular compra

Inoculante com protetor celular existe, tem registro para essa finalidade e aumenta a longevidade da célula na semente, inclusive na presença dos principais produtos usados no tratamento. A extensão, porém, é modesta: essa longevidade não passa de 3 a 5 dias, dependendo do inoculante.

Em 2014 a pesquisa registrava um produto no mercado que permitia inoculação antecipada de até 15 dias, com uma condição decisiva: na ausência de produto químico nas sementes. Semente pré-inoculada que também veio tratada com fungicida, inseticida e micronutriente não se encaixa nesse caso. E como o mercado de inoculante muda de safra em safra, o prazo que vale é o que está no registro do produto que você tem na mão, não esse.

O número que a pesquisa pede na semeadura

Para inoculação feita na hora, em área já cultivada, a indicação é fornecer no mínimo 1,2 milhão de células viáveis por semente. Para semente pré-inoculada, o piso é mais baixo, e ainda assim precisa estar de pé no momento da semeadura: pelo menos 80 mil a 100 mil células viáveis por semente. Repare na palavra certa, porque ela muda o que você pode cobrar: a pesquisa recomenda esse piso. Não é exigência de lei.

E aqui vai o detalhe que ninguém conta na hora da venda. A legislação de inoculantes cobra concentração do produto dentro da embalagem, no mínimo 1,0 × 10⁹ unidades formadoras de colônia por grama ou mililitro, mais a ausência de microrganismo não especificado no fator de diluição 1 × 10⁻⁵. Semente pré-inoculada é outra coisa: nem a legislação de inoculantes nem a de sementes contempla a análise dela, o que abre brecha para a comercialização sem fiscalização. Ou seja, não existe número legal para você cobrar da revenda nesse lote. Quem tem que cobrar o número é você, antes de plantar.

Esse é o teste real da semente pré-inoculada. Não é o que o rótulo declarava na fábrica, é o que está vivo no dia em que a semente entra no sulco.

O ensaio que mostra a queda

O grupo da Embrapa Soja avaliou dez produtos comerciais e pré-comerciais, alguns já empregados em larga escala no agronegócio brasileiro, e o resumo do que encontrou é curto: a sobrevivência não foi aceitável em períodos superiores a 10 dias. A situação fica ainda mais séria em semente tratada com agrotóxico e micronutriente, com redução drástica no número de células recuperadas.

Esse mesmo trabalho mediu a recuperação de células de Bradyrhizobium em semente de soja armazenada, em unidades formadoras de colônia por semente, com e sem químico junto. Os números falam sozinhos:

Tratamento2 horas10 dias15 dias30 dias
Inoculante turfoso4,29 × 10⁵5,26 × 10³5,78 × 10²1,81 × 10²
Turfoso com Co, Mo, tiram e carbendazim1,32 × 10⁵3,56 × 10²1,25 × 10²1,67
Líquido com Co, Mo, adesivo e protetor3,85 × 10⁵9,59 × 10³5,63 × 10³1,42 × 10²
Líquido com Co e Mo, sem adesivo e sem protetor1,66 × 10⁴3,14 × 10²zerozero

Três leituras saem dessa tabela, e todas mudam decisão:

Agora compare qualquer uma dessas linhas com o piso de 80 mil a 100 mil células por semente. Mesmo a melhor linha aos 10 dias, 9,59 × 10³, está de oito a dez vezes abaixo do piso. Aos 30 dias, nenhuma chega perto. É aí que a semente pré-inoculada guardada no galpão se encaixa: do lado errado.

Diluir em água para render piora

O mesmo grupo testou a dose do inoculante líquido na semente. Com produto de 1,5 × 10¹⁰ células por mililitro, a recuperação foi de 1,85 × 10⁶ células por semente com 100 mL por 50 kg, e de 0,89 × 10⁶ quando a dose virou 50 mL de inoculante mais 50 mL de água. Mesmo volume final na semente, metade da bactéria recuperada.

Uma terceira linha do mesmo ensaio fecha o raciocínio: 50 mL de inoculante puro, sem água nenhuma, deu 1,02 × 10⁶. Então a maior parte da perda vem de cortar a dose pela metade, e a água tira mais um pedaço em cima disso. Economizar produto custa bactéria das duas formas.

Por isso a indicação é aplicar no mínimo 100 mL de inoculante líquido por 50 kg de semente, sem diluição em água. E o volume total de líquidos na semente, somando inoculante e demais produtos, não deve passar de 300 mL por 50 kg para não comprometer a viabilidade da própria semente, com relatos de até 550 mL em semente de alto vigor.

O que perguntar antes de aceitar semente pré-inoculada

  1. O inoculante usado tem registro no Ministério da Agricultura para pré-inoculação, e para quantos dias de armazenamento?
  2. Em que data o lote foi inoculado? A conta é de dias, não de semanas.
  3. Quais produtos químicos foram aplicados na mesma operação? Com fungicida e micronutriente na semente, a janela encurta.
  4. Existe análise de laboratório do lote? A recomendação é analisar as sementes antes da semeadura para avaliar a sobrevivência das bactérias, porque a redução drástica de células vivas em semente pré-inoculada tem sido observada de forma consistente.

A decisão prática

Se a semente foi inoculada dentro da janela registrada do produto, semeie e acompanhe a nodulação no campo. Se passou da janela, ou se ninguém sabe a data, trate a semente como não inoculada: reinocule no dia do plantio, ou leve o inoculante para o sulco de semeadura, que é o caminho indicado quando a semente já carrega químico.

Se for pelo sulco, atenção na dose, porque ela não é a mesma da semente: a indicação é aplicar o equivalente a no mínimo 2,5 milhões de células por semente, com volume de calda não inferior a 50 L/ha. Em área de primeiro cultivo, no mínimo o dobro da dose recomendada para área já cultivada. Levar para o sulco a dose que você usaria na semente é subdosar.

E vale lembrar o que nunca muda: inoculante não entra no mesmo caldo dos produtos químicos. Primeiro trata a semente com o químico e deixa secar, depois, em uma segunda operação, aplica o inoculante, no máximo 24 horas antes da semeadura.

O aderente e o prazo da operação manual estão em açúcar cristal na inoculação. A unidade que vale em todas essas contas está em quantas células por semente. A armadilha do produto concentrado, em a conta da diluição do rótulo. E o que conferir antes de pagar, em as seis conferências.

Referências: HUNGRIA, M.; NOGUEIRA, M. A. Fixação biológica de nitrogênio. In: SEIXAS, C. D. S. et al. (ed.). Tecnologias de produção de soja. Londrina: Embrapa Soja, 2020. Capítulo 8, p. 185-196. (Sistemas de Produção, 17). NOGUEIRA, M. A.; HUNGRIA, M. Boas práticas de inoculação em soja. In: REUNIÃO DE PESQUISA DE SOJA DA REGIÃO SUL, 40., Pelotas, 2014. Atas e resumos. Pelotas: Embrapa Clima Temperado, 2014. p. 40-45. FERREIRA, E.; NOGUEIRA, M. A.; FUKAMI, J.; CONCEIÇÃO, R. B.; HUNGRIA, M. Nova legislação, recomendação de doses de inoculantes e pré-inoculação: riscos ao sucesso da contribuição da fixação biológica do nitrogênio para a cultura da soja. In: REUNIÃO DE PESQUISA DE SOJA DA REGIÃO CENTRAL DO BRASIL, 32., São Pedro, 2011. Resumos. Londrina: Embrapa Soja, 2011. p. 325-327. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 13, de 24 de março de 2011.

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