Soja não nodulou: a inoculação de resgate até V4 e o que ela recupera
Arrancou a planta, cavou com cuidado, contou os nódulos e o número veio baixo. A pergunta imediata é se dá para fazer algo ainda nesta safra ou se a conversa já é sobre a próxima. Existe um protocolo de resgate, ele tem dose e horário definidos, e tem um limite honesto: recupera parte, não tudo.
O calendário que diz se a inoculação pegou
Entre 5 e 8 dias após a emergência já é possível ver os primeiros nódulos. No estádio V1 a V2, a avaliação da Embrapa Soja espera uma média de 4 a 8 nódulos por planta, com 1 mm a 2 mm, considerando pontos representativos da lavoura. O nódulo ativo tem o interior avermelhado ou róseo, cor que vem da leghemoglobina.
O tamanho muda conforme a referência e o momento da leitura. Sousa e Lobato descrevem nódulos de 2 mm a 3 mm na coroa da raiz como indício de nodulação precoce, e essa leitura por posição está em onde ficam os nódulos. Os dois números convivem: o de 1 mm a 2 mm é o que a Embrapa Soja descreve em V1 a V2, bem no começo.
Repare que a leitura é por estádio, e não por data de calendário. Em ano de temperatura alta a soja chega em V2 mais rápido, e quem espera uma data fixa perde a janela de reagir.
O gatilho da decisão
O número que dispara a aplicação complementar é objetivo: média inferior a 10 nódulos por planta até o estádio V3 a V4. Acima disso, a nodulação está encaminhada e pulverizar inoculante é gasto sem retorno.
Antes de aceitar o número, confirme a amostragem. Cave com pá em vários pontos do talhão: nódulo arrancado pelo caule se desprende e fica no solo, produzindo diagnóstico falso de ausência, e falha de inoculação costuma vir em mancha, não em cobertura uniforme. E planta verde e bem desenvolvida sem nódulo não é falha, é nitrogênio mineral do solo sendo absorvido. Os dois casos estão destrinchados no post sobre a posição dos nódulos.
O protocolo do resgate
| Item | O que a pesquisa indica |
|---|---|
| Janela | até V3 a V4, com média abaixo de 10 nódulos por planta |
| Dose | equivalente a 6 milhões de células por planta, de 5 a 7 doses de inoculante por hectare, conforme a concentração do produto |
| Volume de calda | no mínimo 200 L/ha |
| Mistura | nenhuma, o inoculante vai sozinho no tanque |
| Alvo | jato dirigido para o solo, não para a folha |
| Condição | solo úmido e aplicação no fim da tarde |
| Alternativa | irrigar após a aplicação, quando houver como |
Cada item desse resolve um problema específico. O volume alto, o jato dirigido ao solo e a irrigação depois existem pelo motivo declarado no próprio capítulo: garantir que os rizóbios cheguem até os segmentos novos das raízes, que são os suscetíveis à formação de nódulos. O fim da tarde e o solo úmido protegem a bactéria da dessecação e dos raios ultravioleta, que é o que mata a célula na superfície. E o tanque limpo é o mesmo princípio de sempre: defensivo e rizóbio não convivem.
O que o resgate não devolve
A própria recomendação avisa: nesse caso a recuperação da nodulação será apenas parcial, porque somente o contato da bactéria com a semente no momento da semeadura permite a máxima contribuição da fixação biológica.
O capítulo é ainda mais direto quando trata da pulverização sobre o solo: essa opção é muito menos eficaz do que a inoculação nas sementes ou no sulco. E o ganho que a pesquisa atribui à coroa da raiz é específico, não vale para o ciclo inteiro: nodulação mais precoce e abundante na região da coroa da raiz principal resulta em maior eficiência da fixação na fase inicial do desenvolvimento da cultura. Quem chega em V4 já passou dessa fase e alcança apenas os segmentos novos de raiz. Resgate é contenção de prejuízo, não recuperação de teto produtivo.
O ensaio que mediu isso ajuda a calibrar a expectativa. No Cerrado de Roraima, uma inoculação em cobertura aos 18 dias após a emergência, com o triplo da dose padrão, aumentou a nodulação e a matéria seca das plantas aos 45 e aos 60 dias, igualou o tratamento com 200 kg/ha de nitrogênio em produtividade de grãos e em acúmulo de nitrogênio, e superou o controle sem inoculação. Ficou abaixo da inoculação padrão nas sementes justamente na produtividade de grãos. Ou seja: resolve, e cobra um pedaço do teto.
Por que não resolver com nitrogênio
A tentação é trocar a bactéria por ureia. Mais de 200 ensaios conduzidos em todas as regiões produtoras do Brasil mostram que a aplicação de fertilizante nitrogenado reduz a nodulação e não incrementa a produtividade da soja. E a conclusão vale para aplicação na semeadura ou em cobertura, em qualquer estádio, em semeadura direta ou convencional, em cultivar de ciclo curto ou longo, de crescimento determinado ou indeterminado, transgênica ou não.
A ordem de grandeza explica por que a conta não fecha. Para produzir 3.500 kg/ha de grãos são necessários cerca de 280 kg/ha de nitrogênio, na base de 80 kg de nitrogênio por tonelada de grão. Uma formulação comum com MAP entrega perto de 20 kg/ha de nitrogênio bruto, o que vira cerca de 10 kg/ha líquidos considerando eficiência de uso raramente superior a 50%. São 3,6% da necessidade da cultura, insuficiente para alimentar a lavoura e suficiente para inibir a nodulação.
A regra de compra que sai disso, incluindo o teto de 20 kg/ha no sulco, está em 30 kg/ha não pagaram.
O que investigar para não repetir
- Tratamento de sementes. A maioria das combinações indicadas reduz nodulação, e o prejuízo é maior em solo de primeiro cultivo, em solo arenoso e em área que não recebeu soja há alguns anos.
- Tempo entre inocular e semear. Pela recomendação da Embrapa Soja, passadas 24 horas sem protetor celular específico registrado para isso, a inoculação precisa ser repetida. E 24 horas é o teto sempre que houver tratamento de semente, porque o defensivo é tóxico ao rizóbio e o contato deve durar o mínimo possível.
- Dose e volume. Inoculante líquido abaixo de 100 mL por 50 kg de semente distribui mal, e diluir em água para render piora.
- Calor. Depósito de semente quente na semeadeira reduz a sobrevivência das bactérias.
- Micronutriente na semente. Cobalto e molibdênio são indispensáveis à fixação, mas podem ser tóxicos à bactéria no contato, e por isso a indicação é aplicá-los via foliar entre V3 e V5, na faixa de 2 g/ha a 3 g/ha de cobalto e 12 g/ha a 25 g/ha de molibdênio.
E se a nodulação veio fraca em área com soja há anos, a dose cheia é o que decide a disputa com a população já estabelecida no solo: os 16 ensaios da Embrapa Cerrados estão em reinocular em área antiga.
Referências: HUNGRIA, M.; NOGUEIRA, M. A. Fixação biológica de nitrogênio. In: SEIXAS, C. D. S. et al. (ed.). Tecnologias de produção de soja. Londrina: Embrapa Soja, 2020. Capítulo 8, p. 185-196. (Sistemas de Produção, 17). NOGUEIRA, M. A.; HUNGRIA, M. Boas práticas de inoculação em soja. In: REUNIÃO DE PESQUISA DE SOJA DA REGIÃO SUL, 40., Pelotas, 2014. Atas e resumos. Pelotas: Embrapa Clima Temperado, 2014. p. 40-45. ZILLI, J. E.; MARSON, L. C.; MARSON, B. F.; GIANLUPPI, V.; CAMPO, R. J.; HUNGRIA, M. Inoculação de Bradyrhizobium em soja por pulverização em cobertura. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 43, n. 4, p. 541-544, 2008. SFREDO, G. J.; OLIVEIRA, M. C. N. de. Soja: molibdênio e cobalto. Londrina: Embrapa Soja, 2010. 36 p. (Embrapa Soja. Documentos, 322). SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2004. Capítulo 4, p. 116-117.Aplica esse conhecimento no seu próprio laudo
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